segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Autor no cinema, apresentando o Roteirista/Diretor


Ajustando um roteiro meu de longa, lembrei de como é difícil esse tal "ofício de escrever", imaginar cena por cena e colocá-la em formato de roteiro a ser lido e compreendido por outras pessoas. O roteiro não é o resultado final de um trabalho, e sim a planta baixa para se poder realizar um filme, seja ele qual for. Tudo que vemos, de desenhos animados, filmes de alto e baixo orçamento, em tudo mesmo, existe um roteiro que foi seguido, raros são os casos de filmes de “puro improviso". Até mesmo os documentários seguem uma linha já pré-determinada. Mas o que quero comentar é sobre os roteiristas que também dirigem os seus trabalhos, ou os diretores que também são roteiristas, olha, esse nível de trabalho dá pra se dizer que o cara é bom ou que pelo menos têm "culhões” em fazer o filme desde a concepção original até o filme pronto na tela, acreditem, é muito trabalho. E também um trabalho muito prazeroso, quando se sabe que o que se está escrevendo irá terminar na tela com certeza. Tenho grande admiração pro inúmeros cineastas, obviamente, mas quero comentar mais particularmente sobre dois que, com suas marcas próprias e indiscutivelmente originais em suas abordagens, fazem um cinema sempre de primeira linha, são eles Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson.

Jamie Foxx e Leonardo DiCaprio em "Django Unchained"
  A pouco tempo pude ver o novo de Tarantino, "Django Unchained”, finalmente um western deste fã confesso de Leone e do Western Spaghetti da melhor safra. Django consegue ser um filme que entra no imaginário popular assim que termina, suas imagens e interpretações ficam eternizadas por um roteiro que explora como poucos a questão da escravidão nos Estados Unidos e traça uma realidade deste passado um pouco já esquecido. Era vital para Tarantino expor muitas das feridas ainda não cicatrizadas daquela época e junto a isso, claro, fazer um cinema de entretenimento. Quando integrantes da Ku Klux Kan se dão conta de que não conseguem enxergar muito bem com aquelas máscaras em um de seus ataques, Tarantino nos mostra como ele têm o dom de brincar e fazer chacota de assuntos considerados tabus e expõe o ridículo desses pensamentos nocivos e racistas. Novamente um filme de vingança, novamente uma ficção inserida em um contexto histórico real, como em “Bastardos Inglórios” e a vingança aos nazistas, Tarantino consegue ser um cineasta ao mesmo tempo sério e muito bem humorado, o bacana é que quando se assiste a um filme dele, se sabe que qualquer coisa pode acontecer, os seus personagens sofrem e passam por dificuldades inimagináveis, e o cara nos leva lá como se fosse a coisa mais fácil do mundo de se fazer. Sabe muito esse Tarantino, desde "Cães de Aluguel”, para mim, ele nunca decepcionou.



PTA no set de "Boogie Nights" (1997)
Paul Thomas Anderson talvez seja o novo Kubrick, ou o novo Orson Welles, ou talvez seja o exemplo de cineasta que leva tão a sério o seu ofício de fazedor de filmes que ele não se contenta com a sua primeira versão de roteiro, ele explora e explora até tirar o caldo que acha essencial para criar personagens que acreditamos existirem. Uma das últimas incursões minhas ao cinema foi justamente para ver “O Mestre”, onde PTA exercitou os seus demônios e colocou em prática a sua maestria. Mais calmo com sua câmera ( até porque era uma câmera de 70 mm de meio século atrás) ele focou muito nos seus personagens, poucas vezes vimos atuações tão excentricas e desconcertantes quanto fora está de Joaquim Phoenix neste “O Mestre", simplesmente genial. Começando com “Hard Height”ou simplesmente como ele prefere chamar, "Sidney” de 1996, seguido de “Boogie Nights” de 1997, P.T. Anderson já mostrava um vigor cinematografico como poucos em seu início de carreira, cenas em planos sequência, várias histórias paralelas e uma mistura de celebração e clima de tensão dos melhores que se pode ter ao se ver um filme. Pouco tempo depois um acontecimento cinematográfico, pelo menos para este que vos fala, “Magnólia” de 1999 era ou melhor, é um épico sobre o ser humano, suas falhas, suas tentativas de acertos e sua teia de personagens perturbados e maravilhosos, segundo o próprio PTA, tudo começou quando ele ouviu algumas faixas de Aimee Mann, gostou do seu teor "pessoal” e pegou emprestado uma das frases e começou a escrever um diálogo entre um casal, “Agora que eu te encontrei, você não se importaria de nunca mais nos vermos de novo?”, do diálogo surgiram dois personagens perturbados e o resto é história. O próprio diretor e roteirista já comentou em mais de uma ocasião que acredita que ali fez o seu melhor trabalho, o seu “masterpiece”. Depois seguiram “Embriagado de amor” de 2002, outro mergulho na mente humana e seus anseios, talvez o melhor filme que Adam Sandler participou, "Sangue Negro” de 2007 deu o Oscar ao seu protagonista, Daniel Day Lewis ( foto abaixo) e explorou a ganância do ser humano quando o assunto é petróleo, o filme é considerado um dos principais filmes já feitos sobre o tema e também é um clássico instantâneo. Que venham mais criações deste autor sem igual, um cineasta que não se liga a modismos e formatos, que está sempre instigando a sua platéia e que sempre encontra um jeito de deixar a sua marca.


Um fato interessante é que estes dois autores são bastante amigos, em um programa da televisão americana chamado “Iconoclastas", Tarantino conversou por algumas horas com Fiona Apple, cantora americana e ex-namorada de Paul Thomas Anderson, neste programa ela comentou que ao caminho de encontrar os dois em NY para uma janta, ela parou na Universidade em que fazia o curso de cinema, pegou uma fita VHS de um aluno desconhecido qualquer com o seu curta-metragem e levou para assistir junto com eles. Infelizmente o trabalho não impressionou ninguém e o aluno nem soube desta sua “audiência", se o trabalho fosse revelador talvez o novo cineasta teria sido “descoberto” por dois dos mais instigantes e criativos cineastas da nossa era, e isso teria sido no mínimo curioso e inusitado. Até a próxima...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O Cinema Puro - Primeira Parte

--> O cinema é uma grande união das artes e isso, é claro, não é nenhuma novidade. Desde o seu surgimento, ele vem sendo transformado e incrementado na sua capacidade de envolvimento do público que, além de querer ver um filme que conte uma boa história, quer ser levado a imagens e sons que os transportem para outras realidades ou fantasias. Na época do cinema mudo, os cineastas estavam testando as possibilidades da imagem, ousando na arte de preencher a tela, o cinema alemão, por exemplo, no chamado expressionismo alemão experimentava muito nas formas de cenários, maquiagem de atores, na fotografia que ousava no uso das sombras e quadros como Fritz Lang ( Metrópolis/ Dr. Mabuse) e F.W. Murnau ( M, o Vampiro de Dusserdorf) e no cinema russo com o uso da montagem ousada e rápida, destacam-se Pudovkin, Einsenstein, Kuleshov entre outros desta grande escola.
O GABINETE DO DR.CALIGARI,  DIR. ROBERT WEINE
  
George Meliés, um ilusionista que estava na primeira projeção dos irmãos Lumiere, se maravilhou com as possibilidades do cinematógrafo, e ao contrário deles, viu uma grande possibilidade de uso desta curiosidade. Ele construiu para si um destes equipamentos e começou a fazer imagens por conta própria. Um certo dia, em um dos seus primeiros testes, a câmera travou enquanto Meliés filmava uma rua movimentada, quando conseguiu resolver o problema ele voltou a rodar, quando revelou o filme notou que um dos carros havia "sumido” na cena, nascia ali o primeiro efeito especial. A partir deste momento Meliés passou a usar o cinema para criar as suas novas ilusões e realizou centenas de filmes curtos que deixaram o mundo fascinado com o poder do cinema.

Alfred Hitchcock
Um dos grandes expoentes e defensores da criação imagética no cinema foi Alfred Hitchcock, Hitch quando jovem logo reconheceu o poder do cinema que busca contar a sua história por imagens, por movimentos de câmera elaborados, por quadros milimetricamente pensados e por uma montagem bem empregada. Foi na Alemanha que o jovem cineasta constatou o cuidado com o quadro filmado e ficou maravilhado em ver que cenários de prédios e quadras imponentes inteiras eram criadas em estúdio para a melhor colocação da câmera e comodidade para as filmagens. Começando ainda no cinema mudo, Hitchcock soube explorar como poucos as possibilidades da câmera e atravessou com maestria a mudança do cinema mudo para o falado. Durante toda a sua carreira ele sempre sentiu que o cinema poderia ter chegado a maiores alturas se houvesse uma maior compreensão do uso do som junto a imagem, e principalmente, do uso do quadro cinematográfico e sua função em ajudar a contar uma história . Passou a lamentar um segmento na feitura de filmes, que como dizia, eram “teatro filmado” e sem nenhuma preocupação estética ou cinematográfica. Este seu sentimento perdurou até o fim da sua carreira, porque os filmes de “talking heads” seguem existindo até hoje, mas Hitch sempre fez a sua parte e inovou a linguagem cinematográfica abraçando cada nova descoberta tecnológica. Nem dá para imaginar o que ele faria com os recursos técnicos de hoje, onde cada vez mais o digital está presente em cada produção, certamente ele estaria ousando com filmes e cenas de tirar o fôlego do espectador.

Aos poucos iremos explorar as novas facetas da criação dos filmes, estudar alguns de seus grandes realizadores e buscar explanar de forma clara e objetiva os seus filmes e estilos. Espero que este texto seja de proveito de estudantes de cinema, cinéfilos e entusiastas em geral. Obrigado pela compania, em breve volto com mais!

Rodrigo Portela