
Ajustando
um roteiro meu de longa, lembrei de como é difícil esse tal "ofício
de escrever", imaginar cena por cena e colocá-la em formato de roteiro
a ser lido e compreendido por outras pessoas. O roteiro não é o
resultado final de um trabalho, e sim a planta baixa para se poder
realizar um filme, seja ele qual for. Tudo que vemos, de desenhos
animados, filmes de alto e baixo orçamento, em tudo mesmo, existe um
roteiro que foi seguido, raros são os casos de filmes de “puro
improviso". Até mesmo os documentários seguem uma linha já
pré-determinada. Mas o que quero comentar é sobre os roteiristas
que também dirigem os seus trabalhos, ou os diretores que também
são roteiristas, olha, esse nível de trabalho dá pra se dizer que
o cara é bom ou que pelo menos têm "culhões” em fazer o
filme desde a concepção original até o filme pronto na tela,
acreditem, é muito trabalho. E também um trabalho muito prazeroso,
quando se sabe que o que se está escrevendo irá terminar na tela
com certeza. Tenho grande admiração pro inúmeros cineastas,
obviamente, mas quero comentar mais particularmente sobre dois que,
com suas marcas próprias e indiscutivelmente originais em suas
abordagens, fazem um cinema sempre de primeira linha, são eles
Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson.

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| Jamie Foxx e Leonardo DiCaprio em "Django Unchained" |
A pouco
tempo pude ver o novo de Tarantino, "Django Unchained”,
finalmente um western deste fã confesso de Leone e do Western
Spaghetti da melhor safra. Django consegue ser um filme que entra no
imaginário popular assim que termina, suas imagens e interpretações
ficam eternizadas por um roteiro que explora como poucos a questão
da escravidão nos Estados Unidos e traça uma realidade deste
passado um pouco já esquecido. Era vital para Tarantino expor muitas
das feridas ainda não cicatrizadas daquela época e junto a isso,
claro, fazer um cinema de entretenimento. Quando integrantes da Ku
Klux Kan se dão conta de que não conseguem enxergar muito bem com
aquelas máscaras em um de seus ataques, Tarantino nos mostra como
ele têm o dom de brincar e fazer chacota de assuntos considerados
tabus e expõe o ridículo desses pensamentos nocivos e racistas.
Novamente um filme de vingança, novamente uma ficção inserida em
um contexto histórico real, como em “Bastardos Inglórios” e a
vingança aos nazistas, Tarantino consegue ser um cineasta ao mesmo
tempo sério e muito bem humorado, o bacana é que quando se assiste
a um filme dele, se sabe que qualquer coisa pode acontecer, os seus
personagens sofrem e passam por dificuldades inimagináveis, e o cara
nos leva lá como se fosse a coisa mais fácil do mundo de se fazer.
Sabe muito esse Tarantino, desde "Cães de Aluguel”, para
mim, ele nunca decepcionou.


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| PTA no set de "Boogie Nights" (1997) |
Paul
Thomas Anderson talvez seja o novo Kubrick, ou o novo Orson Welles,
ou talvez seja o exemplo de cineasta que leva tão a sério o seu
ofício de fazedor de filmes que ele não se contenta com a sua
primeira versão de roteiro, ele explora e explora até tirar o caldo
que acha essencial para criar personagens que acreditamos existirem.
Uma das últimas incursões minhas ao cinema foi justamente para ver
“O Mestre”, onde PTA exercitou os seus demônios e colocou em
prática a sua maestria. Mais calmo com sua câmera ( até porque era
uma câmera de 70 mm de meio século atrás) ele focou muito nos seus
personagens, poucas vezes vimos atuações tão excentricas e
desconcertantes quanto fora está de Joaquim Phoenix neste “O
Mestre", simplesmente genial. Começando com “Hard Height”ou
simplesmente como ele prefere chamar, "Sidney” de 1996,
seguido de “Boogie Nights” de 1997, P.T. Anderson já mostrava
um vigor cinematografico como poucos em seu início de carreira,
cenas em planos sequência, várias histórias paralelas e uma
mistura de celebração e clima de tensão dos melhores que se pode
ter ao se ver um filme. Pouco tempo depois um acontecimento
cinematográfico, pelo menos para este que vos fala, “Magnólia”
de 1999 era ou melhor, é um épico sobre o ser humano, suas falhas,
suas tentativas de acertos e sua teia de personagens perturbados e
maravilhosos, segundo o próprio PTA, tudo começou quando ele ouviu
algumas faixas de Aimee Mann, gostou do seu teor "pessoal” e
pegou emprestado uma das frases e começou a escrever um diálogo
entre um casal, “Agora que eu te encontrei, você não se
importaria de nunca mais nos vermos de novo?”, do diálogo surgiram
dois personagens perturbados e o resto é história. O próprio
diretor e roteirista já comentou em mais de uma ocasião que
acredita que ali fez o seu melhor trabalho, o seu “masterpiece”.
Depois seguiram “Embriagado de amor” de 2002, outro mergulho na
mente humana e seus anseios, talvez o melhor filme que Adam Sandler
participou, "Sangue Negro” de 2007 deu o Oscar ao seu
protagonista, Daniel Day Lewis ( foto abaixo) e explorou a ganância do ser humano
quando o assunto é petróleo, o filme é considerado um dos
principais filmes já feitos sobre o tema e também é um clássico
instantâneo. Que venham mais criações deste autor sem igual, um
cineasta que não se liga a modismos e formatos, que está sempre
instigando a sua platéia e que sempre encontra um jeito de deixar a
sua marca.


Um fato
interessante é que estes dois autores são bastante amigos, em um
programa da televisão americana chamado “Iconoclastas",
Tarantino conversou por algumas horas com Fiona Apple, cantora
americana e ex-namorada de Paul Thomas Anderson, neste programa ela
comentou que ao caminho de encontrar os dois em NY para uma janta,
ela parou na Universidade em que fazia o curso de cinema, pegou uma
fita VHS de um aluno desconhecido qualquer com o seu curta-metragem
e levou para assistir junto com eles. Infelizmente o trabalho não
impressionou ninguém e o aluno nem soube desta sua “audiência",
se o trabalho fosse revelador talvez o novo cineasta teria sido
“descoberto” por dois dos mais instigantes e criativos cineastas
da nossa era, e isso teria sido no mínimo curioso e inusitado. Até
a próxima...